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Pete Benson, Chefe de Mecânicos de Nicky Hayden

O que marca a diferença entre um campeão do mundo e o resto é a sua força mental, mais que o físico ou a moto

Depois de 10 anos a trabalhar na equipa Repsol Honda, Pete Benson teve a oportunidade de trabalhar com alguns dos melhores pilotos da história do motociclismo, como Mick Doohan e Valentino Rossi. Em 2005, este australiano de 45 anos, residente na Nova Zelândia, tornou-se Chefe de Mecânicos de Nicky Hayden.

A sua experiência mundial começou no ano de 1994 como mecânico do britânico Niall MacKenzie, piloto Yamaha, e um ano mais tarde deu o salto nas Superbikes ao fixar-se na Honda. Após dois anos a trabalhar com Aaron Slight voltou ao Continental Circus em 1998, pela mão da Honda, como mecânico de Tady Okada. Na equipa da Repsol Honda teve a oportunidade de trabalhar com Mick Doohan e em 2001 passou a integrar a equipa de mecânicos de Tohru Ukawa. Em 2002 e 2003 ganhou o Mundial de MotoGP com Valentino Rossi e um ano mais tarde trabalhou com Alex Barros. Desde a temporada de 2005, dirige a box de Nicky Hayden, com quem ganhou outro Mundial no ano seguinte, desta vez como Chefe de Mecânicos. 

De todos os pilotos com que já trabalhou, qual foi o que mais o impressionou e porquê?
“Valentino Rossi e Mick Doohan. Com Doohan estive em muito poucas corridas, mas os dois são pilotos incríveis. Valentino tem uma boa capacidade de entender tecnicamente o que acontece com a moto e é muito claro no que faz e no que necessita. Para além de que as suas, quando têm que ir realmente rápido, coloca-os, ambos, num passo adiante da sua competência. Podem estar a pilotar e a  testar coisas, mas quando é preciso têm a capacidade de ir mais rápido. São brilhantes.”

Como definiria Nicky Hayden como piloto?
“É um trabalhador incansável. Trabalha arduamente, é muito agradável e com o qual é fácil trabalhar. Dá o máximo, não se cansa e não se dá vencido com nada. É um trabalhador nato.”

Qual a sua principal virtude?
“É muito decidido e é uma pessoa com a qual se trabalha facilmente e isso ajudou-nos muito nos últimos quatro anos. Isso faz com que as coisas sejam muito mais fáceis na hora de trabalhar. Nunca se queixa.”

Em que aspectos pode melhorar?
Talvez apenas lhe falte um pouco mais de consistência nos treinos e isso ajudaria um pouco, apesar de crescer sempre nas corridas. É um lutador.”

O ano passado foi uma temporada complicada para o campeão do Mundo 2006. Três terceiros foram os seus melhores resultados com a nova Honda RC212V. Como se motiva um piloto que consegue um título mundial e no ano seguinte sofre com uma moto com a qual não se entende?
“Foi complicado. Creio que Nicky não se adaptou especialmente bem às 800cc. A 990cc adapta-se muito melhor ao seu estilo e levou o seu tempo a adaptar-se às exigências da nova cilindrada. Contudo, não necessitava de motivação especial porque motivava-se a ele mesmo sem necessidade de que lhe dissessem que teria que fazer isto ou aquilo. Não era preciso. Quando as primeiras quatro a cinco corridas são difíceis há que recuperar. Aconteceu por exemplo na Ilha Phillip onde estava a pilotar rapidamente e de repente rompeu-se o motor. Foi o pior que podia acontecer porque estava em condições de voltar a subir ao pódio.”

A pré-temporada e o início em Qatar não foram fáceis, mas a partir de Jerez começou a chegar aos resultados. Como vê a Repsol Honda RC212V 2008?
“O que temos agora parece bastante bem. Tivemos muitos problemas durante a pré-temporada e não fizemos um trabalho especialmente bom nos treinos deste ano. Creio que perdemos em alguns aspectos que eram bastante importantes e não tivemos um início de ano nada bom. Contudo, agora parece que a moto funciona realmente bem e creio que, se a Honda conseguir melhorar um pouco mais o motor, teremos uma moto muito boa.”

Qual pode ser o pior pesadelo para a equipa MotoGP durante um Grande Prémio?
”Não estar no pódio todas as semanas”

O que é que mudou no trabalho dos mecânicos com a evolução tecnológica?
“A electrónica foi o que mais mudou mas o trabalho dos mecânicos não é muito diferente do que sempre se fez. O que se passa é que a electrónica tem agora um papel muito importante nos ajustes da moto e há dez anos não tinha. A mecânica não mudou muito, só que os injectores, os responsáveis pela injecção, tornaram-se uma parte muito importante de tudo isto”. 

Trabalhou com campeões como Doohan, Rossi e o própio Hayden. O que marca a diferença para que um piloto consiga ganhar um Mundial?
“Os pilotos que ganharam em várias ocasiões num Mundial, como Doohan ou Rossi, têm uma força mental incrível. Creio que é o mais importante. São muito fortes mentalmente. Há sempre uma quota parte de sorte em cada campeonato, mas basicamente consegue-se um bom campeonato sendo consistente e rápido todas as semanas, acabando no pódio em todas elas. Além disso, Valentino e Mick não se preocupavam com o que se poderia dizer e com o que se passava à sua volta. Creio que a chave é mental, muito do que o físico/corpo ou a moto. A cabeça é o que marca a diferença.”

Chegaram muitos novos pilotos à categoria, jovens e de grande qualidade. É mais fácil chegarem à categoria rainha agora? Acha que aumentou muito o nível do MotoGP?
“Não sei se o nível da categoria aumentou. Só temos as corridas do campeonato até ao momento. Provavelmente, agora é mais fácil para os pilotos de 250cc. adaptarem-se devido ao maior controlo de potência mas Dovizioso ou Lorenzo são pilotos com um enorme talento. Ainda que creio que deveríamos esperar mais três ou quatro corridas para ver se o nível da categoria mudou assim tanto porque na minha opinião à medida que se avança de temporada teremos provavelmente os mesmos quatro pilotos do ano passado e talvez mais dois que tenham alguma opção. Poderá ser mais competitivo mas não creio que aumentou muito.” 

Em que medida mudou o Mundial desde que chegou?
“Há demasiadas corridas. Creio que quando cheguei fazíamos 13 corridas por ano e agora são 18 e muitos mais treinos. Tornou-se num trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana, quando antes era bastante mais pausado, com uma grande pausa no Natal. Faz falta fixarmo-nos na dimensão dos espaços e em todo o que o que o rodeia para ver a quantidade de dinheiro que se gasta agora. Não sei se é melhor ou não mas estas são as principais mudanças.”

500cc, 990cc. ou 800cc.?
“Agora já se faz muito 500cc. Realmente, não me importa, desde que as corridas sejam boas e a tecnologia vá melhorando. As 500cc. eram umas máquinas selvagens que muita gente podia pilotar. Provavelmente agora as motos são algo mais fácil de pilotar e é possível mais gente ser mais rápida. Mas os Grandes Prémios continuam a ter o máximo nível e é a categoria escolhida quando o que se trata de correr.”

Crê que a electrónica ou os pneus se tornaram um peso muito maior do que a qualidade dos pilotos?
“Não, porque o talento do piloto continua ser muito importante. O conjunto é que é importante. Podes ter a melhor moto mas se o piloto não é bom não conseguirá ganhar. E ao contrário: podes ter o melhor piloto com a pior moto mas também não ganhará. Tem que estar tudo no seu lugar. No ano passado dizia-se que ganhavam os Bridgestone e este ano verificou-se que não. A Michelin fez um enorme trabalho mas tem tudo a ver como muda este negócio. Os avanços tecnológicos estão a acontecer muito mais rápido do que anteriormente e há que investir muito mais em tecnologia. Mas é bom e há que aproveitar. Contudo, não creio que isso eclipse os pilotos. Pode fazer com que alguns pilotos pareçam melhores do que são mas no final do dia os melhores são sempre os que estão no topo.”

Parece ser que este ano não se voltará a falar dos pneus…
“Não, não. Creio que continuará a falar. Sé estamos na terceira corrida e será interessante ver o que se passa quando vamos a alguns circuitos em que uma fábrica testou e a outra não. Continuará a ser um aspecto interessante e será sempre enquanto continuará a haver várias fábricas. Mas não acredito que seja tão importante como algumas pessoas quiseram fazer crer no ano passado.”

Ao ter dois pilotos com probabilidades de ganhar na equipa Repsol Honda crê que incide no rendimento dos pilotos e respectivos corpos técnicos, ou não? Beneficiam dessa competitividade?
“Creio que se pode gerir. No fundo, os pilotos querem sempre ganhar por eles mesmos não por uma equipa ou outra coisa qualquer. Querem conseguir o Campeonato do Mundo sozinhos Aqui, todos estão pelo mesmo: ganhar corridas. Seguramente, será algo mais difícil se não ganhas ou não estás à frente já que o outro piloto pode receber mais atenção. Mas no fundo, todos estão a lutar pelo mesmo: todos querem ganhar.” 


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